Sucesso Popular
quinta-feira, outubro 1st, 2009Eu fui criado por professores. Meu pai hoje é advogado e minha trabalha na secretaria de educação da cidade, mas ambos foram/são professores. Isso significa que fui criado rodeado de livros. De excelentes livros, escritos pelos grandes autores da humanidade. Tenho plena consciência do quanto isso soa arrogante e já aviso que vai piorar muito antes de melhorar, mas fique comigo, por favor. Desde cedo li Hemingway, Dickens, Oscar Wilde e Bernard Shaw. Dos brasileiros, comecei por Monteiro Lobato e logo depois fui apresentado a Marcos Rey, que me acompanhou durante toda pré-adolescência. Finalmente cheguei em Luís Fernando Veríssimo, Guimarães Rosa, Rubem Fonseca, Nelson Rodrigues e Paulo Leminski.
Isso quer dizer que não cresci lendo autores “populares”. Pouca gente sabe, porque hoje quando se fala em música brasileira dos anos 70 só se fala em Gil, Caetano, Chico Buarque e Mutantes. Mas o que era popular nos anos 70, o que tocava no rádio e vendia milhares de cópias, não eram os discos desses “grandes nomes da mpb”. Os que vendiam mesmo eram Waldick Soriano, Agnaldo Timóteo, Nelson Ned e Benito de Paula. Nunca ouvi um disco desses caras inteiro, mas fui criado com infinitos discos de Gil, Caetano, Chico Buarque e os Mutantes.
Então você imagina qual não foi a minha surpresa quando descobri em um livro de um autor “popular”, a resposta para a pergunta que assombra a minha vida há algum tempo.
A pergunta (se é que isso interessa) é “o que fazer da minha vida?”. Acho que desde que saí da faculdade, diploma debaixo do braço e cheio de arrogância, não sei direito o que quero fazer. A arrogância foi embora e aquela certeza de que eu ia me encontrar com o meu destino mais cedo ou mais tarde, foi pro saco logo em seguida. Sobramos eu e meu diploma. Eu não entendia então, mas essas duas coisas já eram mais do que existia no começo, o que é assunto para outra hora. O que estou dizendo é que a ideia de que não restava mais nada além de mim mesmo era assustadora. Já falei excessivamente sobre medos, depressão e síndrome do pânico em outros lugares, então acho melhor não voltar a discutir esse assunto aqui. Mas sim, fui vítima de tudo isso. Passou. Bola pra frente.
Entra em cena o tal autor popular. Stephen King.
King é o autor de mais ou menos uns três milhões de livros. A metade já foi adaptada para trinta e cinco outras mídias e a outra metade está esperando para seguir o mesmo caminho. Ele é conhecido por ter escrito grandes contos de terror, mas se você procurar com cuidado, deve achar também bulas de remédio, manuais de instrução e receitas de bolo de autoria dele. O primeiro, e até agora único, livro que já li de King se chama O Pistoleiro. É o Volume I de um épico intitulado “A Torre Negra“. Em seus sete volumes, a Torre conta a história de Roland Deschain, o tal pistoleiro, e suas histórias em busca da Torre.
Acontece que não foi o livro o que me pegou. Foi o prefácio. Sim, eu sou patético desse tanto. A seguir, uma grande citação para vocês entenderem o que estou dizendo:
“Acho que escritores aparecem em duas categorias, e isso inclui o tipo de escritor frangote que eu era em 1970. Aqueles destinados ao lado mais literário ou “sério” do trabalho examinam cada possível tema à luz da pergunta: O que esse tipo de história significaria pra mim? Aquele cujo destino inclui a elaboração de livros populares estão aptos a fazer uma pergunta bem diferente: O que escrever esse tipo de história significaria para os outros? O escritor “sério” está procurando respostas e chaves para o eu; o escritor “popular” está procurando um público. Ambos os tipos são igualmente egoístas. Conheci um bom número deles, e deixo aqui meu testemunho e garantia a esse respeito”.
Então veio. Como um raio. De repente e barulhento. Veio sem aviso. O meu ka, o meu destino, me encontrou (ou eu encontrei ele, como você preferir): eu quero ser um artista “popular”. Quero que meus trabalhos cheguem às mãos do maior número possível de pessoas. Quero que todo mundo veja que “isso aqui” é legal. Seja lá o que “isso aqui” for.
Hoje, e durante um tempo ainda não determinado, esse “isso aqui” é o Saca-trapo.
Bem-vindo.







