Archive for setembro, 2009

Pincéis

terça-feira, setembro 29th, 2009
A notícia se espalhou rápido. A princípio, ninguém queria acreditar (era muito horrível para ser verdade), mas as reportagens não paravam e era chegado o momento de aceitar: o Kolinsky estava extinto.

É de conhecimento universal que os melhores pincéis do mundo são feitos de pelo de kolinsky. São também os pincéis mais caros, mais apreciados e mais cobiçados. A comparação com pincéis de doninhas, de rabo de pônei ou de orelha de boi não chega a ser justa. O grande Emanuel de LaCoreza disse, pouco antes de sua morte, que o prazer de usar um kolinsky legítimo era maior do que aquele oferecido pelas mulheres. O fato de de LaCoreza ter sido uma bicha maluca que morreu asfixiado com o falo de um oriental particularmente bem dotado durante um jogo erótico em um quarto de hotel no Vietnã, não foi levado em conta e a citação pegou. Frases do tipo “troquei minha mulher de 40 anos por dois kolinsky série 20″ se tornaram populares e, há quem diga que, se vivo, de LaCoreza deveria ser responsabilizado pela extinção dos kolinsky.

TVs de todas as aprtes procuraram os pintores de suas regiões para explicar o que essa extinção significaria para o mundo das artes. As respostas, é claro, variavam desde “o mundo está acabando” (frase mais comumente ouvida entre lágrimas e desespero e na França), até “não muda nada. Nós usamos lápis” (resposta padrão na Rússia).

Mas a verdade é que não importava o que qualquer pessoa dissesse. Todos sabiam que quem daria a palavra final sobre o assunto, quem deveria ser ouvido de fato, quem importava. Xistóvam Sabido (nome artístico)! O maior pintor vivo. O mais celebrado artista da humanidade. Talento raro, tanto quanto artista quanto como negociante. Suas obras estavam espalhadas pelo mundo, vendidas a preços de turmalina Paraíba. Ainda assim, a maior parte dos críticos também admirava seus trabalhos, celebrando Sábido como um exemplo de artista completo.

Sábido vendeu sua entrevista por uma quantia de sete dígitos. As negociações foram feitas através de um de seus agentes, já que não era de conhecimento geral onde o artista morava. Boatos diziam que ele tinha propriedades espalhadas pelo mundo todo, o que era verdade e só dificultava ainda mais a sua localização. No entanto, em uma manhã nublada de terça-feira, em um estúdio de TV em Nova York, Xistóvam falou a uma audiência estimada de alguns bilhões.

“A extinção do kolinsky significará o fim de uma era”, disse o artista em seu tom de voz grave e pausado. “Sim, no futuro, porque ainda acredito que poderemos encontrar kolinskys em algum canto do mundo, esquecidos da humanidade”.

E a confusão se instaurou.

É preciso entender que artistas são pessoas não muito sociáveis. São uma raça de gente que passa a maior parte de suas vidas em seus estúdios ou ateliês, criando (às vezes muito, às vezes nada), na maior parte do tempo, sozinhas. Para esse povo, uma convenção de pais e professores pode ser um desafio, uma festa pode ser a ideia que eles têm de purgatório e um show de estádio, desses que reúnem mais de 50 mil pessoas, é o próprio inferno.

Agora, partir em busca de criaturas extintas (ou que se acredita estarem extintas) é um desafio mesmo para profissionais, para aventureiros de carteirinha e para criptozoólogos. Não é difícil imagina então que, quando esses artistas de traquejo social zero, que mal sabem amarrar os próprios cadarços, foram em busca do “último kolinsky”, o que encontraram foi morte, desaparecimentos, loucura, insanidade, pânico e desespero.

Vários dos grandes artistas do mundo morreram em tentativas frustradas de encontrar um bicho que seria o derradeiro de sua espécie.

Logo, os quadros e obras desses artistas se valorizaram e foram vendidos por preços antes impossíveis. Mas as obras minguaram e não demorou para que todos (ou quase todos) os trabalhos dos “caçadores de kolinsky” (que é como a imprensa catalogava ou autores desses obras) saíssem do mercado. Quem as comprava raramente revendia. É claro que o mercado negro ainda estava funcionando a todo vapor, porque o mercado negro está sempre funcionando, mas o grosso da coisa deixou as casas de leilões e foi parar em museus ou na parede das casas dos ricos e famosos.

Quem ainda estava no mercado, produzindo o que os críticos chamavam de “o melhor trabalho em uma carreira que parecia não ter para onde evoluir”, era Xistóvam Sábido. Seus quadros atingiram preços estratosféricos e, ainda assim, os colecionadores, museus e galerias compravam o que podiam. Em um incidente particularmente interessante, dois possíveis compradores japoneses saíram no tapa durante um leilão em Londres, antes mesmo que o pano que cobria a obra tivesse sido levantado.

Às vezes, durante alguns períodos de falta de notícia, os jornais davam voz a organizações como a Sociedade Protetora dos Animais e a PETA, que acusavam artistas de estarem matando qualquer bicho (ou criança) que se parecesse com um kolinsky. Representantes indignados contavam trágicas histórias e apresentavam fotos e vídeos perturbadores de pilhas de animais mortos e sem pelos, esquecidos em alguma floresta ou escondidos em galpões clandestinos.

Quando esse tipo de reportagem começava a chegar às ruas, e o povo iniciava um burburinho a respeito de quem deveria ser o culpado por aquelas crueldades, notícias do avistamento de um kolinsky eram transmitidas ao redor do mundo e uma nova caçada recomeçava.

Enquanto isso, confortavelmente instalado em sua casa escondida, Xistóvam Sábido continuava pintando com seus pincéis kolinsky, feitos por ele e por sua mulher, ali mesmo, usando o pelos dos kolinskys que eles criavam no quintal dos fundos. Caso a necessidade se apresentasse, como tinha acontecido outras vezes, um dos animais de suas coleção era solto em algum lugar do mundo, e Sábido e sua mulher acompanhavam o noticiário para ver quantos de seus concorrentes tinham morrido, sumido ou ficado maluco.

E eles riam sozinhos, brindando em taças de cristal cheias de vinho do porto, o plano que elaboraram juntos e que dera certo.

Raubaram o elmo de Mabrino… outra vez…

terça-feira, setembro 29th, 2009
Don Quixote foi eleito o melhor livro do mundo. Não tenho certeza se é pra tanto, talvez seja um dos melhores livros do mundo. Mas eu, mero blogueiro e apreciador da escrita, jamais ousaria propor essa lista. Ainda sim, concordo que ele mereça.

É uma história linda, sobre um maluco sonhador, que se fez herói vestindo trapos e lutou menino, contra os monstros que só ele via. Don Quixote é figurinha fácil de livraria e sebo, você consegue comprar por R$ 15 uma edição bem boa. Dá uma volta por lojas de livros usados, que te garanto que você acha.

Mas se juntar mais 10 reais, você leva o livro da Bruna Surfistinha. Bem mais fino, cheio de sacanagem, fácil de ler e completamente oportunista. Ou talvez você queira o livro da arqui-inimiga dela. Porque agora, lançaram livro da mulher que perdeu o marido pra tal da “ex”-menina da vida. (eu não dou link pra essas porcarias nem sob tortura).

Pra quem quiser, eu sei um truque de como conseguir publicar um livro sem nada dentro, ganhar dinheiro, ficar famoso e ser esquecido na semana que vem:

Faz um blog cheio de palavrões e referências sexuais. Coloca pelo menos um post novo por dia. Em seis meses, você vai ter material pra publicar o livro e audiência pra convencer uma editora.

O blog O Meu Pipi não recebe um post novo desde 2003, mas ainda tem uma média de 250 visitas por dia. Quem escrevia, pelo menos tinha criatividade, bom humor e não lucrou nada com isso, porque nunca assumiu a autoria. Mas a Ediouro lucrou. (Tá certo que na mão do Mario Prata a coisa até ficou boa.)

É claro que pra cada Cervantes, existem algumas milhares de Brunas Surfistinhas. O que me deixa triste é a quantidade de “leitores” que colocam esse tipo de vigarice na lista dos mais vendidos. E, pra piorar, ainda faz a porcaria render programa e “contra-livro”.

Esse mal gosto só pode ser obra do nigromante¹…

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¹ se você ler Don Quixote, vai saber quem é esse cara
² ainda escrevo uma resenha melhor sobre esse livro, ele merece.
³ Aqui tem uma listinha de sebos pra te ajudar

Por gentileza

terça-feira, setembro 29th, 2009
Aqui você pode conhecer o profeta Gentileza. Ultimamente, o Gonzaguinha tem cantado bastante no meu quaispod¹ e ele gosta de falar desse cara. Então, achei este artigo no Por Trás da Letras, site que costumo visitar pra aprender cada dia mais um pouquinho. Resumindo, é sobre o que deveríamos dizer se não resumíssemos (também fala sobre oportunismos – mas disso, não vou comentar nesse texto):

Exemplo do que quero comentar:
“Obrigado” é a forma de agradecimento resumida de “da próxima vez, serei obrigado a lhe fazer o favor que me pedir”. Ou seja, quando digo “obrigado“ a alguém, estou contraindo uma dívida com esse alguém!

Palavrinha capitalista, né?

Daí a menção ao Gentileza. Ele sugeria que devíamos trocas as expressões “por favor” e “obrigado” por “por gentileza” e “agradecido”. Assim, não viveríamos mais “devendo” favores e controlando nossas obrigações e seriamos gentis e educados assim mesmo.

Sempre gostei de brincar com essa idéia, mas agora tenho motivos pra adotar esse ensinamento.

Não espere nada em troca, nem ofereça. Faz por gentileza e sinta-se satisfeito por ter feito bem.

Então, muito agradecido por sua visita!

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¹ quaispod é o meu celular que toca MP3 e tenta fazer de conta que é um Ipod

Vil metal

terça-feira, setembro 29th, 2009
Dona Marluce contava as moedinhas de sua última negociata. Ela vendia guarda-chuva na esquina do abrigo onde passava a noite. Tinha sido primeira-bailarina do teatro municipal quando moça. Se casou com o filho de um rico industrial, que ao ser chamado à responsabilidade de dirigir os negócios da família, faliu e sumiu pelo mundo.

Marluce primeiro deu aulas de balé, mas ninguém mais queria aprender balé… Então procurou empregos menos “garbosos”, foi balconista, faxineira, babá e antes de vender guarda-chuvas, trabalhou numa fábrica de panelas como cantineira.

O importante nas profissões de Marluce é que nunca fora demitida. As empresas com as quais se envolvia sempre faliam, sem que ela jamais ocupasse um cargo que pudesse, mesmo que vagamente, imputar-lhe a culpa pelo malogro. Ela se tornara um tipo de cavaleira do apocalipse moderna, pressagiadora da bancarrota e do calote…

Apesar dos infortúnios, se mantinha integra. Certa vez encontrara o marido bêbado e louco, vestindo farrapos e recolhendo latas de refrigerante. Mesmo com o orgulho ferido e duas décadas de pesares, Marluce quis ampará-lo. Não pôde… ele fugiu envergonhado da própria miséria.

Marluce tivera a idéia de vender guarda-chuvas ao perceber que ninguém lembrava de carregá-los. No começo, vendia material de primeira por um preço justo… Mas quem queria apenas fugir da chuva, não se dispunha a pagar muito e aceitava qualquer coisa.

Foi quando ela resolveu se mudar para o abrigo. Vendeu a casa para comprar um contêiner inteiro de guarda-chuvas chineses. Tinha lucro irrisório de pouco mais de 30 centavos. E já estava no sexto carregamento e este seria o último. O governo da China havia mudado as regras de exportação de guarda-chuvas depois de uma onda de falências…

Mas Marluce não se importou. Já fazia um tempo que ela pensava em investir os ganhos no mercado futuro.

Principalmente em ações de petróleo…

violino

terça-feira, setembro 29th, 2009
Estava nervoso. Era a primeira apresentação. Claro que estaria nervoso… principalmente com aquele “instrumento” de segunda categoria. Experimentou cada corda até chegar na afinação mais perfeita que uma rabeca daquelas poderia oferecer. Suspirou arrependido de não ter trazido seu próprio violino. O sino deu o sinal para o início da apresentação. Precisava tomar seu lugar junto aos demais.

Quando a cortina se abriu, houve um ensaio de aplauso, mas o maestro, rigoroso, logo bateu a batuta pedindo silencio aos expectadores. Isso só serviu para deixá-lo mais nervoso. Sentir que o público acolhia os músicos seria reconfortante nesse momento tão delicado.

Não houve nenhum problema, tudo corria naturalmente. Foram feitos muitos ensaios. Mas o solo de violino ia começar a qualquer instante… Segurou o coração na boca enquanto os instrumentos iam, um a um, se calando até que só restasse uma melodia leve que aos poucos tomava a platéia.

O som parecia vir do instrumento de um anjo. Estava lívido. Agora, mais do que nunca, sentia-se culpado por ter se negado a emprestar o violino de seus tempos de orquestra. Sozinha no palco, iluminada por todas as luzes que continuavam acesas, aquela menina de 13 anos parecia reinventar cada acorde. Ela tinha chorado por sua causa…

Ele tentava decifrar naquele rostinho alguma expressão de rancor ou tristeza que fosse resultado de sua teimosia de velho. Não havia nada naqueles olhos. Sua netinha parecia oca enquanto tocava…

A alma havia abandonado o corpo frágil e encontrado abrigo no instrumento.

Só ele percebia que aquilo não era mais apresentação de um grupo de formandos de escola de música.

Era uma consagração.

Cada nota era o verso de uma prece. Ela abandonava todas as religiões e sonhos para se tornar um trecho da melodia…

Seu coração de velho não agüentou.

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Quando voltou pra casa, insistiu em reunir filhos e netos para um último abraço. Algo lhe diziam que não seria capaz de resistir a cirurgia. Há quinze anos sua esposa deixara este mundo em seus braços, na cama que dividiram por quatro décadas. Seu último esforço foi para abraça-lo, beijar-lhe a fronte e dizer que não poderia imaginar uma vida mais feliz do que a que teve ao lado dele.

Dormiram abraçados e ela nunca mais acordou…

Agora estava sentado aos pés dessa mesma cama. A caixa do violino posta ao seu lado. Havia pedido aos filhos que aquele fosse um último jantar iluminado por velas, como sua companheira tanto amava.

Quando foram buscá-lo, saiu sem dizer uma palavra. Levava consigo a pequena maleta e o instrumento que, a custa da saúde do pai em uma mina, recebera em seu primeiro dia no conservatório. Caminhava confiante e lentamente entre três gerações de olhos inseguros e curiosos.

Escolheu um canto mais escuro da sala, retirou o violino da caixa e começou um lamento triste. Uma música que se perderia logo em seguida e fora arquitetada por seu espírito durante os longos meses em que o corpo permaneceu atado àquela cama de hospital.

Lembrava-se de como o pai tossia em sua primeira apresentação com a orquestra da cidade. Sentiu-se constrangido e implorou aos colegas que lhe perdoassem. Depois fez o pai prometer que não iria mais às estréias e sempre se sentaria na última fileira.

Cerrou os olhos para se livrar das lágrimas. Naquela época, sentira-se um filho justo, pois não negara ao pai o direito de vê-lo tocar. 60 anos depois, se escondera nas sombras para sussurrar um pedido de perdão que a vergonha não deixaria ninguém ouvir.

Sentia os ossos rangendo. Cada decida do arco era um estalo doloroso. Mas decidira não parar. Não tocava para nenhum dos filhos. Não tocava para nenhum dos netos. Não tocava para o pai. Tocava por aqueles 15 anos sozinho naquela casa. Tocava para mostrar que também fora feliz ao lado dela. Tocava para que quando parasse, estivessem juntos novamente.

Seu vulto mal se destacava nas sombras enquanto a melodia corria.

O som parou.

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Ficou com o violino do avô. Os pais acharam um absurdo quando ela disse que levaria para o apartamento que dividia com as amigas de faculdade. Um instrumento valioso como aquele, Stradivarius genuíno, não podia ficar largado em qualquer canto! Aquilo estava na família há 4 gerações! Ela não deveria tratá-lo de forma tão irresponsável!

Nem pai, nem mãe sabiam sequer assoviar. Pediam que abaixasse o som, estivesse tocando Mozart ou Metálica. Não entenderiam se ela argumentasse que um violino guardado é só uma coisa. Era preciso torná-lo real. Ele só existia durante a música.

Ela só estava viva durante a música.

Era a pressão dos dedos nas cordas que bombeava seu sangue. O coração só servia para marcar o compasso. Não conheceu tabus.

Exceto o silêncio.

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Acordou tarde na casa de um rapaz que sempre estava por perto quando precisava de companhia. Viu a maleta vazia. O rapaz, num banquinho do lado da cama, admirava o instrumento como se fosse peça de decoração.

De pé na cama, pediu o violino e ensaiou algumas notas antes de começar. A pele branca, os cabelo escuros, o rosto sereno, leves movimentos que seguiam as notas pra mostrar que era o corpo quem soava.

Ela queria que ele percebesse o quanto aquilo tinha significado. Talvez fosse a primeira vez que tocava com tanta paixão desde aquela apresentação. Talvez aquele rapaz, aos poucos, tivesse conseguido chegar até onde a música invadia sua alma. Talvez ele entendesse…

Ele interrompeu.

Estava cego. O mundo girava em torno dela e tudo que queria era tocar aqueles lábios tristes.

Ele interrompeu.

Ela saiu pela porta, colocou o vestido corredor afora, foi pra rua, correu descalça até uma praça quase deserta. Só viu que ainda carregava o violino quando sentou em um banquinho. Na sua cabeça, era interrompida pelo grito da mãe em sua primeira apresentação e pelo beijo daquele rapaz a poucos instantes. Sua vida se quebrava quando a paixão arranhava sua realidade.

O avô morrera com aquele instrumento.

Ela só vivia enquanto as cordas vibravam.

Precisava saber…

Começou a tocar.

Credulidades e literatura? Claro que dá certo!

terça-feira, setembro 29th, 2009
Diz o livro da revelação de São João que no fim haverão sinais e presságios…

Pois esse fim de semana eu vi o cão chupando manga…

E fotografei pra provar:

E o tal bicho tava satisfeito, viu?

“fraquinha essa, né blogueiro? Podia ter-nos poupado o tempo…”

Então digo aos meus caros leitores que o tempo de vocês não há de ser perdido com o xiste. Pois esse é só o pretexto para falar abordar o tema superstição e fazer uma excelente indicação de leitura:

As crônicas de Arthur: Rei do Inverno, Inimigo de Deus e Excalibur, de Bernard Cornwell.

O livro, como já deu pra perceber, conta mais uma versão da lenda do Rei Arthur e os cavaleiros da távola redonda. Mas a beleza desses livros está numa abordagem simpática a um argumento mais antropológico. Não tem teoria ou coisa parecida, só uma visão mais sóbria da realidade daquele período.

O Livro é contado por um sujeito chamado Derfel (não vou apresentar os personagens, senão estraga as surpresas), alguns anos após o fim do período “arturiano”. As situações são narradas como alguém daquele século enxergaria. E nessa coisa de te colocar pra ler um “relato” do século V, você se depara com a ingenuidade e credulidade de uma época onde um maluco com esterco na cabeça começava a sacudir um osso de galinha e era tratado como feiticeiro e qualquer pio de coruja ou latido de cachorro é sinal de alguma coisa.

Na época que Moby Dick foi escrito, ainda acreditava-se que baleia era peixe… No livro, o autor discorre sobre a anatomia da baleia tratando-a com toda convicção como um peixe. Deu pra entender como pode ser divertido ler um relato de outra época?

Voltando ao rei Arthur. A ambientação da história difere muito de outras versões, principalmente no que a gente pode chamar de quesito vestuário. Esqueça as armaduras sólidas e comece a pensar em escudos.

Isso! Escudos! Da descrição das batalhas é riquíssima, os personagens são maravilhosos e o Merlin é o grande filho da puta que aprendemos a admirar…

Podem preparar uma bolsa cheia de patacas… pois não são baratos, mas são um excelente investimento pra não ficar na estante, mas rodando a família inteira.

Restinho do FIT BH
Pelas abas, dá pra conferir fotos e vídeos dos dois últmos eventos do FITBH que pude participar.

Depois reclamam quando gringo fala mal da gente

terça-feira, setembro 29th, 2009
Política internacional é uma coisa complicada, né?

Cuba sofre um embargo americano há quase 50 anos e tem 3% de analfabetismo… É um regime ditatorial que, obviamente, persegue as pessoas… Mas o interessante da coisa é a inversão. Lá, os comunistas é que dizem que os outros comem criancinhas.

É um país pequeno, depende de muita coisa de fora, mas por causa de um embargo dos EUA, poucos governos se animam a ajudar. Hoje o turismo é muitíssimo importante para a economia cubana.

E é nesse ponto que entra a fala da mãe de uma jogadora de volei cubana:
“se não fosse a revolução, eu e minha filha seriamos prostitutas em um hotel” (foi mais menos isso que ela disse)

Se eu não estiver enganado, a mãe dessa jogadora é uma enfermeira aposentada. Medicina em Cuba é outra coisa muito boa. O que essa senhora falou tem um sentido curioso. O capitalismo, com seu foco nos $$$$$$$, te oferece mais conforto e qualidade de vida¹ (o ¹ é uma nota de rodapé. Se você não sabe o que é, tem grandes chances de não entender esse texto), mas de uma forma meio torta…

Existem “serviços” que são, digamos, incentivados em um regime capitalista e não contam com o mesmo “status”² em outras situações. Em BH tem muita menina linda do interior, de fámilia bem de vida, que quando vem pra capital vira prostituta. Mas por que, se o pai dá apartamento bom, mesada de R$ 100 reais por semana, paga faxineira, manda as compras da casa semanalmente, paga a banda larga e a TV a cabo e até um Pálio 2003 ele deu?

É que aqui, no colégio, cursinho ou faculdade, esse tipo de menina, que no interior era princesa é só mais uma e assiste a filha do banqueiro ou executivo ser estrela de carro importado e gastando sessenta pratas em um almoço… Aí a caipira³, que sempre foi A tal em sua cidade, resolve ser A tal por aqui… mas como? Se o pai já disse que não dá pra trocar o Fiat num Audi?

O ridículo da história é que ela acredita que ninguém fica sabendo…

Mas voltando pra Cuba, o diferente parece estranho. Mas enquanto os democráticos daqui torcem pro Fidel bater sua última continência, lá, os revolucionários estão torcendo pro povo aqui pegar em armas e botar pra quebrar com nossos deputados.

Vai saber quem está certo…

Mas o errado é fácil de achar.

É o cara que olha pra Cuba com olhos de brasileiro, ou olha pro Brasil, com olhar de cubano…

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¹ o divertido sobre qualidade de vida é que se o sujeito morasse na beira de um lago, produzisse a própria comida e nunca tivesse ouvido falar em dinheiro, ele teria mais qualidade de vida que um alto executivo, que tem uma poltrona de massagem, uma ferrari, 5 celulares, uma cabana na beira de um lago e um iate. O primeiro nem ia precisar de eletricidade, o segundo, dos 5 telefones, dois seriam via satélite…

² eu sei. tem aspas demais no texto.

³ caipira, nesse caso, é como a moça do interior se sente por não ter um óculos da Dior, uma bolsa daquele francês que eu não consigo lembrar o nome e ter comprado perfume no Boticário.

Em tempo, o perfume mais caro que meus nariz teve a oportunidade de sentir tem o mesmo cheiro daqueles pó de q-suco. Recomento florata.

Camas para gatos…

terça-feira, setembro 29th, 2009
Esse merece a boa e velha ‘intertextualização’ (se você não lembra das aulas de literatura, acaba de perder uma piada). Tem coisas que nem Frued, nem Maquiavel deram jeito (se eu precisar explicar, no lugar de um post, escrevo um livro beeeemmm chato).

É castigo de Chronos, o titãn, senhor do tempo, devorador dos próprios filhos (deuses, diga-se de passagem). Pois ele deve ter uma influência danada sobre sua filha Mnemosyne, deidade da memória.

Já reparou como as pessoas tendem a sumir por uns tempos (geralmente depois de uma bela cagada) e reaparecer aos poucos, medindo o terreno pra ver se a coisa já esfriou?

Igualzinho cachorro quando toma uma bronca.

Isso pra não falar que você, esse ano, vai votar em apagão, privatização, mensalão, oposição irracional(pode chamar de sabotagem), sensacionalismo, abafamento de investigações, pirraça e um monte de outros “valores éticos”. E ainda vai se justificar apontando os mesmos defeitos nos demais candidatos…

Não conseguiu fazer todas as conexões?

Culpe o panteão helênico.

Mas por favor, respeite as pessoas.

Você está tão errado quanto elas.

Chutar um chato não vai fazer os outros pararem…

Vai votar nulo?

Que irônico!

Seu protesto vai ajudar justamente quem você não quer no poder…

Procissão Mascara – FIT 2006 – um monte de doido

terça-feira, setembro 29th, 2009

Sou rapaz do interior. Quando chegava parque na minha cidade, minha turma amanhecia na fila pra poder aproveitar o que desse. Não sei como se chama na sua terra, mas em Formiga (princesa do centro-oeste mineiro), cidade que dividia com o Rio de Janeiro (é sério) o coração de Lamartine Babo, aquela roda gigante que no lugar da cadeirinha tem uma gaiola se chama estrela.

Lembro da primeira vez que me trouxeram no Parque Municipal. Pra mim, aquilo era uma floresta… e não esqueço de como foi impressionante seguir por seus caminho e me deparar com um daqueles brinquedões de centopéia…

Antes de continuar, é bom dizer que acho que o Lamartine apareceu por lá no sábado… Pois não é que o bosque do menino deslumbrado abrigou um carnaval digno do Lalá?

Uma procissão de mascarados saiu de Oliveira (outro pontinho do centro-oeste) pra homenagear seus loucos e iluminar o Curral do Rei, mas vou deixar o Guilherme explicar:

E umas fotos:

Pó da terra – Procissão Mascara – FIT 2006

Pó da terra – Procissão Mascara – FIT 2006

Pó da terra – Procissão Mascara – FIT 2006

de quebra, vocês podem ver mais esta bonequinha fazendo dança do ventre:

Espetáculo Bonecas – FIT BH 2006 (eu sei que ta mal gravado, mas você esperava o que de uma câmera de celular?)

Rabiscos primos

terça-feira, setembro 29th, 2009


La chute d’Icare – Picasso

Lá foi esse blogueiro conferir a Exposição do Picasso,
que rolou até ontem aqui em BH. O cara era bom mesmo, viu? Algumas gravuras
são tão ricas que dá pra ficar horas apreciando.

Vocês leram a palavra “algumas” lá em cima? Pois é disso que eu queria falar.

Arte é o conceito mais complicado que eu conheço. Depois de um tempo, você acaba pegando o jeito com física quântica, teoria da relatividade, derretimento de açúcar pra fazer calda ou configuração do outlook, mas arte tem nós que não desatam.

Tudo que um artista realizou merece o mesmo “tratamento”?

Imagine que numa noite de bebedeira, Leonardo Da Vinci fizesse um boneco de palitinho numa folha de papel qualquer, nem assinasse, enfiasse no bolso e, por distração, largasse sobre a prancheta. Talvez isso possa ter algum valor histórico. Mas será que merece o status de “obra” só porque foi o Da Vinci quem rabiscou?

Ontem, eu, que gosto tanto de apreciar a natureza humana, quanto uma bela obra, pude desfrutar de uns divertidos momentos cômicos. Alguns dos observadores da exposição se detinham longamente em trabalhos como “A mulher toureira” (Linda realmente) ou outros sem título. Entortavam o pescoço para um lado e para o outro tentando arrancar dos traços alguma intenção secreta do autor.

Mas acontece, que alguns daqueles desenhos não passavam disso, desenhos. Talvez um esboço, que Picasso tenha feito para guardar uma idéia que usaria no futuro, mas no fundo, só um rabisco.

Espero que os 3 leitores não me tomem por alguém com pouca sensibilidade artística. Sinto-me bastante confortável para avaliar que um desenho, mesmo de um grande artista, às vezes, não é mais do que um desenho. Mas num mundo que carece de heróis, mitos, lendas, gênios e expressões máximas, qualquer coisa que esses “abençoados” fazem é catalogado e exposto como “mais uma de suas brilhantes obras”.

Enquanto dividia a atenção entre os quadros e os visitantes da mostra, gostava da maioria, não achava graça nesse ou naquele desenho e acabava me divertindo mais com o comportamento de quem os contemplava. Mais tarde, pude assistir um show fantástico do Renato Teixeira.

É fácil gostar do que ele toca. Canções bem trabalhadas, feitas com o mesmo capricho que o Picasso dedicava à suas gravuras. Teve uma que eu não goste, mas ainda assim era “obra”…

Mas no meio do show, o Renato contou que já fez alguns jingles…

Agora eu acho que dá pra concluir.

A musiquinha da Ortopé tem o mesmo valor artístico de Romaria?

Se não tem, você deve estar entendendo quando falo de rabiscos…